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Aborto: salvar a lei, matar a pessoa

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* Por Pe. Paulo Cezar Nunes de Oliveira

Nos últimos dias, assistimos a uma batalha de Tróia em torno da polêmica do aborto.As eleições 2010 correm o risco de se tornarem um plebiscito sobre o tema. Um mais pessimista diria que estamos assistindo a uma gincana. Ganha pontos quem consegue mais acusações, boatos alarmantes, vídeos montados, satanização do adversário. A mídia fala em bala de prata ou fato surpresa, algo parecido comas provas improvisadas de última hora, como fazíamos nos jogos escolares.

Até poucos meses, a mídia do Brasil abominava a idéia da participação da religião na esfera política. Agora, sem nenhuma explicação aparente,transformou a opinião de alguns religiosos no discurso mais qualificado para formar a opinião do eleitor. Às vezes, temos a impressão de que, a partir de 2011, o Brasil deverá adotar um regime de governo condizente com uma república teocrática. Mal desconfiam os cristãos, católicos e evangélicos que a mídia,que hoje exalta a religião, amanhã a desqualifica. A mídia dá, a mídia toma,parafraseando Jó.

Como teólogo da teologia moral, sinto uma tristeza muito grande em ver que um tema de tamanha complexidade, que possui um amplo conjunto de fatores determinantes,envolto a histórias de tantas dores e sofrimentos, ser tratado com tanto quixotismo. Tudo está sendo reduzido a ser contra ou favor. Os argumentos quase sempre são superficiais, não verticalizados. Tratar o aborto como questão de saúde pública sem explicar suas conseqüências não me parece honesto. É inocente também, para não dizer falacioso, o chamado discurso em defesa da vida que fazem alguns religiosos. No fundo, está sendo debatida somente a questão jurídica: deve existir ou não uma lei que criminaliza o aborto? Contudo,qualquer pessoa com a mínima capacidade de ver o óbvio sabe que o simples fato de existir uma lei não altera em nada a realidade: sendo ou não um crime, o aborto existe em todos os países do mundo.

O debate em torno somente da questão jurídica me faz perguntar: estamos realmente interessados em defender a vida ou em defender a Lei?? Qualquer um que queira ser honesto consigo mesmo sabe que o aborto não é evitado apenas pelo discurso moral das religiões ou pela criminalização jurídica. É preciso repensar nossa cultura de morte.

Tenhamos coragem de assumir nossa parcela pessoal de culpa. A decisão de abortar não é tomada exclusivamente pela mulher, é fruto de um conjunto de situações. O fim de um relacionamento, a vergonha de se expor, a insegurança do futuro, a incompreensão dos outros.

Existem também fatores sociais de grande relevância. Um empresário que não contrata uma grávida ou que demite gestantes também está abortando; age da mesma maneira um pai ou a mãe que ameaça expulsar sua filha de casa ou a julga inexperiente para cuidar de uma criança; não foge a essa regra um parceiro que escapa da situação da gravidez de sua namorada ou amante; a mídia que vende um prazer sem compromisso também está contribuindo para o aborto; abortista também é a religião quando não é capaz de acolher as chamadas mães solteiras com afeto e respeito, expondo-as à marginalidade.

Essas são apenas algumas das questões, mas existem muitas outras que precisam ser debatidas. Reduzir algo de tamanho relevo ao slogan? Defesa da vida? É cometer um pecado muito grave.

Por fim, sonho com o dia em que todos nós, que realmente defendemos a vida da sua concepção até o seu fim natural, nos empenharemos em projetos sérios, com uma agenda positiva, buscando soluções no diálogo com psicólogos, médicos, biólogos, sociólogos, mães e pais que sofreram esta experiência e com aqueles que querem evitá-la. No dia 31 de outubro teremos Dilma ou Serra presidente. Não quero ser pessimista, mas se até lá novos temas não surgirem para a avaliação dos eleitores, a mídia terá esquecido a religião. Os bispos, pastores e o Brasil não terão debatido nem sequer uma proposta de governo para os próximos quatro anos. Muitas vidas correrão perigo, principalmente a dos mais pobres. Aí será tarde demais.

*Pe. Paulo Cezar Nunes de Oliveira é Redentorista. Graduado em Filosofia e Teologia. Mestre em Ciências da Religião pela PUC-GO. Professor de Teologia Moral no Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás. Mestrando em Teologia Moral pela Università Lateranense Accademia Alfonsiana de Roma.